FRONTEIRAS INVISÍVEIS: ALTERIDADE E LUGARES DISCURSIVOS

Joana Sampaio Primo, Miriam Debieux Rosa

Resumo


Algumas escolas públicas da cidade de São Paulo vêm se deparando com problemas na escolarização de crianças imigrantes, seja pela barreira linguística, seja pela convivência com culturas distintas. Entendemos que esta convivência possa ser entendida como uma zona de fronteira, isto é, a delimitação nem sempre clara de pertencimentos e não pertencimentos. Dentre os problemas descritos, a escolarização de crianças imigrantes na cidade de São Paulo pode ser caracterizada, sobretudo, por um duplo movimento: evidencia-se pela grande quantidade de queixas escolares e encaminhamentos para processos diagnósticos psicopatológicos e surpreende pelo silenciamento na identificação do problema como algo que diz da condição de ser imigrante. Neste trabalho, baseamo-nos na conceitualização das práticas psicanalíticas clínico-políticas, tal como elaborado por Miriam Debieux Rosa (2016), como uma estratégia de investigação da condição migrante colocada pelas crianças estrangeiras - de primeira ou segunda geração - no convívio em escolas regulares. Pretendemos, mesmo que como um exercício, colocar-nos à prova do presente, isto é, ter como princípio realizar um trabalho que se coloque no limite de nós (FOUCAULT, 2000) e que, por isso, situe-se na fronteira entre uma análise histórica das condições de possibilidade do fortalecimento de determinados discursos e suas materializações nas práticas cotidianas. A partir dessas breves considerações, partimos para aquilo que pretendemos desenvolver neste artigo, a saber, uma análise de três fragmentos, recolhidos ao longo dos anos nas escolas que temos sistematicamente acompanhando, com o objetivo de depreender deles as posições que o outro imigrante tem ocupado em algumas unidades escolares da cidade de São Paulo, no intuito de discutir as versões discursivas da alteridade (DUSCHATZKY; SKLIAR, 2011), produções que na maioria das vezes criam fronteiras.

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